Parampará
Um nível acima
Passada a fase anterior, guru sêva, que em boa verdade também é Yôga, pois é uma forma de Karma Yôga, o mestre transmitirá o conhecimento da arte ao discípulo. Fá-lo-á através do parampará que “significa um depois do outro. Mas o sentido é «transmissão oral», ou seja, é a única forma pela qual o verdadeiro conhecimento pode ser passado de Mestre a discípulo, de boca a ouvido, através dos séculos e milénios.” [1] Curiosamente, alguns dos contos populares são altamente iniciáticos e são as mães que transmitem esse conhecimento através de gerações, contando as histórias, chamadas infantis, às crianças. Não sabem o que estão a transmitir, mas o conhecimento é perpetuado. Isso também é parampará. Mas aí falta-lhes a orientação de um mestre para descodificar o que está em causa. A mãe servirá sempre de grande mestre, mesmo quando ela própria não sabe descodificar o que está a ensinar. Quando a transmissão por parampará é feita sem a consciência do que está a ser ensinado, tanto por parte do emissor, como por parte do receptor, falta-lhes o que na tradição tântrica se chama de ensinamento da boca do mestre à orelha do discípulo – vâktrat vaktrântaram, pois se trata de conhecimento secreto (gupta vidyá) e misterioso (amnaya) [2]. No mesmo sentido, Eliade, pois, na tradição tantrica “a revelação se dirija a todos, a via tântrica comporta uma iniciação que só pode ser feita por um guru; daí a importância do Mestre, o único que pode transmitir, de «boca a ouvido», a doutrina secreta, esotérica [3].” Relação que é essencial na evolução do discipulo, transmitindo-lhe um quadro conceptual de orientação pessoal em relação as fenómenos que vão ocorrendo na sua transformação e ascese. Tudo como explica Sannella, embora em sentido crítico, “o mestre transmite, tanto em palavras como, muitas vezes, por meio de iniciação directa, o conhecimento esotérico ou a visão que o discípulo está prestes a descobrir por si mesmo. Em outras palavras, o mestre proporciona a estrutura da interpretação com a qual, então presta serviços aos acólito, como uma luz que o guia na sua jornada psicoespiritual [4].”
[1] Mestre DeRose, Yôga. Mitos e Verdades, p. 164.
[2] Riviére, El Yôga Tantrico, pg. 34.
[3] Micea Eliade, Pátañjali e o Yôga, ed. Relógio d’pg. 186.
[4] Lee Sannella, A experiência da Kundaliní, pg. 24
João Camacho
Discípulo de Shrí DeRose
Sou irmão de dragões e companheiro de corujas.

